Ensino de português no estrangeiro perde mais de 40 cursos

Os sindicatos denunciam também os cortes nos salários dos professores que não são actualizados há cinco anos

Terça, 27 Setembro 2011 07:42

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Mundo Português - A estimativa é dos sindicatos de professores: a rede de Ensino de Português no Estrangeiro (EPE) sofreu este ano um corte de 40 a 45 cursos, registando-se um grande aumento de alunos por sala e da mistura de ciclos de ensino no mesmo curso.

“Houve um corte substancial nos horários (…) e perdemos entre 40 a 45 horários em toda a rede, o que é elevado”, afirmou à Agência Lusa Carlos Pato, do Sindicato de Professores de Português no Estrangeiro (SPE), acrescentando entretanto, que o início do ano lectivo decorreu “com uma certa normalidade” na Suíça e na Alemanha.

O sindicalista do SPE, organismo afecto à Federação Nacional de Professores (Fenprof), revelou que no Benelux - Bélgica, Luxemburgo e Holanda - houve “um inflacionar dos horários incompletos” de Língua Portuguesa, mas adiantou ter recebido garantias do Instituto Camões (IC) de que, “dentro da racionalidade” de recursos que a crise impõe, a situação será ultrapassada.

Já Maria Teresa Soares, do Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas, ligado à Federação Nacional da Educação (FNE), disse à Lusa que o “ano lectivo está a começar muito mal” e que “os maiores problemas estão a ser causados pelos cortes na rede de ensino efectuados pelo IC.

“Para evitar novas colocações, os horários que no fim do ano lectivo passado ficaram livres devido ao regresso a Portugal ou aposentação dos professores que os detinham foram desmantelados e as horas que os compunham integradas nos horários dos professores restantes, o que na prática significa um grande aumento do número de alunos por professor, grupos extremamente mistos, com alunos de vários níveis leccionados conjuntamente e com menos tempo de aulas”, explicou a sindicalista.

Cortes salariais

Os sindicatos denunciam também os cortes nos salários dos professores que, segundo Carlos Pato, não são actualizados há cinco anos. “Desde 2006 (…) tivemos um prejuízo em termos de massa salarial na ordem dos seis por cento. Quando procurámos repor a capacidade e o poder de compra dos professores, o Governo atribui-nos um aumento de 2,6 por cento, que foi de imediato cortado em 1,5 em Junho e em Janeiro com os famosos 10 por cento”, adiantou Carlos Pato. Carlos pato e Maria Teresa Soares alertam a situação dos professores portugueses na Suíça. “As tabelas salariais são em euros, convertidos localmente em francos suíços, o que significa que os docentes têm vindo a perder boa parte dos seus salários, encontrando-se alguns perto do limiar da pobreza, havendo já professores a trabalhar na hotelaria, gastronomia e limpezas por o salário recebido ser insuficiente para fazer face às despesas quotidianas”, disse Maria Teresa Soares. No mesmo sentido, Carlos Pato sublinhou que “as diferenças cambiais acentuam ainda mais os cortes nos salários”.

Contactado pela Lusa, o IC escusou-se a responder às questões levantadas pelos sindicalistas bem como a fornecer dados relativos ao número de cursos, de professores e de alunos de português no estrangeiro no ano lectivo de 2011/2012. Dados do IC relativos ao ano escolar de 2010/2011 e disponíveis on-line dão conta da existência de cerca de 1.200 professores a leccionar 155 mil alunos inscritos no estrangeiro.

FRANÇA: Alterações preocupam coordenadora

A anunciada alteração do ritmo escolar em França, com reforço dos dias lectivos, é “motivo de apreensão” para os professores de Português, afirmou hoje a coordenadora do ensino naquele país. “O problema é que será cada vez mais difícil conseguir adaptar as horas de Português à mudança de ritmo escolar anunciada pelo Ministério da Educação francês”, afirmou Adelaide Cristóvão à Lusa. Só cerca de um quarto dos cursos de Português em França são leccionados em horário integrado, a maioria é ministrada em horários diferidos, no final da tarde e nos dias em que as escolas estão fechadas. O motivo de apreensão adicional prende-se com a anunciada alteração de dias e horários lectivos para todas as escolas francesas. Até agora, os alunos em França não tinham aulas à quarta-feira e, nos outros dias de semana, as aulas terminam às 16h30, o que possibilita o início de cursos de Português, em diferentes regimes, cerca das 17h.

Com a introdução de aulas à quarta-feira, intercaladas, as aulas terminarão mais cedo, o que coloca um problema de “como preencher horas ou tempos vazios antes das aulas de Português”. O problema torna-se mais agudo quando se sabe que muitos dos alunos que frequentam Português têm de deslocar-se para uma escola diferente, muitas vezes noutra localidade, para ter a sua aula de hora e meia Português.

Adelaide Cristóvão admitiu também que “têm aumentado as dificuldades de abertura de escolas à quarta-feira e aos sábados” para os cursos de Português. “São problemas difíceis de gerir”, declarou.

ALEMANHA: Orçamento dita menos professores

As aulas do ensino de Português para luso-descendentes na Alemanha começaram com 54 professores, menos nove do que no ano lectivo anterior, devido às restrições orçamentais impostas por Lisboa, referiu à Lusa o gabinete de coordenação pedagógica, em Berlim. Para este ano lectivo, estavam inscritos 5.490 alunos, divididos por 329 cursos, em 10 dos 16 Estados da federação alemã que formam a chamada rede portuguesa. Nos restantes seis o ensino de Português é tutelado pelas autoridades regionais germânicas, que contrataram directamente outros professores para o efeito. “A redução de professores obrigará a juntar alguns níveis, mas tentámos salvaguardar a qualidade do ensino e manter as turmas com o menor número possível de alunos”, disse à Lusa a coordenadora pedagógica adjunta, Alexandra Schmidt.

A Lusa teve acesso a uma carta da comissão de Renningen (Baden-Wuerttemberg) em que criticam a redução de horários de Português para os luso-descendentes locais de dois para um dia por semana, afirmando que os 45 alunos em questão “irão ser muito prejudicados”.

O Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas (SPCL) criticou os cortes na rede de ensino promovidos pelo Instituto Camões, considerando-os “de carácter economicista e totalmente anti-pedagógicos”, e sustentado que, sob a nova tutela, “a rede de ensino de Português está a desmoronar-se”.

O SPCL defende o regresso da tutela ao Ministério da Educação.

REINO UNIDO: Coordenadora demite-se

No Reino Unido, a coordenadora do Ensino do Português, Maria José Veiga, colocada há apenas um ano, demitiu-se durante o Verão por falta de apoio em funções administrativas e pela redução do vencimento, como afirmou à Agência Lusa. “Não houve qualquer rotura com o Instituto Camões (IC), eles tentaram sempre ajudar-me naquilo que estava ao alcance deles”, vincou. Porém, alegou ter falta de condições para continuar nas funções, sobretudo devido à carga de trabalho, o que resultava num horário diário de 14 a 16 horas. A antiga coordenadora descreveu que “à vontade 80 por cento do trabalho” do coordenador do ensino no Reino Unido é passado a lidar com contabilidade, nomeadamente com arrendamentos de salas e contratos com escolas e empresas.

Foi para essas funções que Maria José Veiga pediu ajuda a Lisboa, mas os cortes no orçamento impediram a contratação de novos funcionários. A antiga coordenadora foi também confrontada com um aumento das competências em relação aos antecessores quando, além do ensino básico e secundário, passou também a ser responsável pelo ensino superior. “Era volume de trabalho muito grande e sem pessoal para o fazer”, resumiu a coordenadora que voltou a dar aulas numa escola secundária e à investigação na universidade de Aveiro.

A este cenário juntou-se o corte no vencimento imposto pelas reduções das remunerações aos funcionários públicos e que alterou as condições em que aceitou o cargo.