30 de outubro: o nascimento de Carvalho Calero

Quarta, 30 Outubro 2013 00:00

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Professor Ricardo Carvalho Calero

José-Martinho Montero Santalha - O dia 30 de outubro é uma data significativa na cultura galega, e em geral na cultura lusófona, porque é o aniversário do nascimento de Carvalho Calero. No dia 30 de outubro de 1910, arredor das 5 horas da manhã, na casa número 51 da rua de São Francisco, situada na parte antiga da cidade de Ferrol conhecida ainda popularmente como «Ferrol Velho», nasceu Ricardo Carvalho Calero, filho de Dolores Calero Beltrán e Gabriel Carballo Naya.

Ata de batismo

O documento que nos oferece mais dados relativos ao seu nascimento é a ata de batismo, onde, entre outros pormenores, se nos informa do lugar e do momento exatos.

O recém nascido recebeu o batismo um mês mais tarde, no dia 4 de dezembro seguinte (do mesmo ano 1910) na igreja paroquial (de Nossa Senhora) do Socorro (que compreende a zona de Ferrol Velho).

Ao menino foram-lhe impostos cinco nomes, nesta ordem: Ricardo, Leopoldo, Ángel, José, Gerardo; mas só o primeiro deles, Ricardo, chegaria a ter uso real, tanto na vida familiar e particular como no âmbito social.

Seus pais eram Maria Dolores Calero Beltrán e Gabriel Ricardo Carballo Naya. Aparecem também os nomes dos avôs maternos e paternos.

Foi administrador do sacramento não o sacerdote encarregado da paróquia, que era Dom José-Maria Bermúdez, mas, com licença deste, o sacerdote Henrique Gômez Rego, que desempehava o cargo de capelão do Hospital de Caridade, de Ferrol. Talvez era amigo da família.

Eis o texto da acta batismal, conservada no correspondente livro de batismos do arquivo paroquial do Socorro:

"384

Núm. 383: Ricardo Carballo Calero, hijo legítimo.

En la iglesia parroquial de Nuestra Señora del Socorro de / la ciudad del Ferrol, á cuatro de Diciembre de mil / novecientos diez: D. Enrique Gómez, capellan del Hospi-/tal de Caridad, con licencia del cura ecónomo de / esta parroquia D. José María Bermúdez Rodriguez, / Lic. en S. Teologia y Derecho Canónico, bautizó so-/lemnemente á un niño con los nombres de Ricardo, / Leopoldo, Angel, José, Gerardo, que nació el día / treinta del pasado octubre, á las cinco de la / mañana en la calle de San Francisco, núm. / cincuenta y uno, hijo legítimo de D. Gabriel / Ricardo Carballo y Dª. María de los Dolores Cale-/ro Beltran, naturales de esta ciudad y vecinos de / esta del Socorro.

Son sus abuelos paternos, Josefa, / natural del Ferrol; maternos, Angel, difunto y / Dolores, naturales del Barquero –Lugo– y de Ferrol / respectivamente.

Fueron sus padrinos Leopoldo / Ledo y su esposa Elvira Calero, tios del bautiza-/do y vecinos de esta ciudad, á quienes se advirtió / lo que manda el Ritual Romano.

Y lo firmo

Lic. José Mª. Bermúdez.

Ainda que na ata batismal não se nos diz, por outros documentos sabemos que Ricardo era o primeiro filho do casal, que celebrara o seu matrimónio no ano precedente 1909, em 4 de dezembro, na mesma igreja paroquial do Socorro. O pai Gabriel nascera em 2 de junho de 1875, e recebera o batismo na igreja paroquial de São Julião de Ferrol no seguinte dia 5; tinha, pois, 35 anos. A mãe era seis anos mais nova: nascera em 1881 também em Ferrol.

A casa natal

A casa nativa, ainda hoje existente, dá, pela parte traseira, correspondente ao Sul, à Praça Velha (algum tempo chamada «Praça do Marquês de São Saturnino»). No andar que, por causa do desnível do terreno, vem a ser o rés-do-chão para a rua e o primeiro para a praça, residia nesse momento o casal, e aí nasceu Ricardo.

Nesse edifício, na fachada que dá para a rua de São Francisco, uma lápide colocada em 1982 por iniciativa da Sociedade Cultural «Medúlio» de Ferrol como parte de uma homenagem e descoberta em acto público por mão do próprio homenageado, lembra que ali nasceu o escritor.

Lápide na casa nativa de Carvalho Calero

Recentemente tem-se manifestado alguma dúvida acerca de se foi esta realmente a casa onde Carvalho Calero nasceu. Uma pessoa tão meritória da cultura galega na cidade de Ferrol como Jaime López Fernández-Caramelo, em carta aberta dirigida à Câmara Municipal de Ferrol em 12 de dezembro de 2010 com ocasião de o Concelho ter acordado comprar este edifício, falava de “la SUPUESTA casa donde nació el ilustre filólogo Ricardo Carballo Calero, [...] SUPUESTA casa, porque no está probado que tan siquiera viviera en la misma mucho más tiempo que el de su inscripción en el bajo comercial de dicho inmueble [...] ni tampoco se puede probar si Ricardo Carballo no haya nacido en el Hospital de Caridad, como era habitual, y ser registrado en el local comercial de la familia”. E aduz como razão fundamental que no padrão municipal de 1910 figuram como residentes nesse domicílio apenas o casal, sem nenhum filho.

Mas não há fundamento para tal dúvida. É verdade que a residência familiar mudou nos anos seguintes, seguramente em relação com o facto de que crescia a família e o pequeno andar resultava insuficiente: do número 51 mudaram-se ao terceiro andar do núm. 56 da mesma rua de São Francisco, e depois viveram ainda no núm. 40 dessa rua. Mas no momento de Ricardo nascer moravam no número 51.

Por um lado, a informação da ata batismal é clara e terminante: “en la calle de San Francisco, núm. cincuenta y uno”, que era o domicílio da família, como sabemos pelo padrão municial desse mesmo ano 1910. Que neste padrão não apareça ainda o nome de Ricardo tem uma explicação natural: o padrão foi elaborado antes de finais de outubro, e portanto ainda o menino não nascera; habitualmente os padrões de população reflectiam a situação de começos do ano em foco. Não há tampouco motivo para pensar que nascesse no Hospital de Caridade, facto que a ata batismal não teria ocultado; de resto, o normal na altura era nascer no domicílio, não no hospital. (E, em qualquer caso, mesmo tendo nascido no hospital, o padrão municipal não teria silenciado o nome do menino no domicílio paterno se existisse já quando o padrão se fez).

Por outro lado, contamos com o testemunho explícito do próprio Carvalho, quem não tanto talvez pela própria memória quanto por uma firme e espontânea tradição familiar (mais segura ainda pela conservação da proximidade domiciliária nos anos seguintes) sabia desde a sua infância que aquela era a casa onde ele nascera.

Fachada da casa nativa de Carvalho Calero

O ambiente social: Ferrol Velho

O escritor evocaria na sua madurez as lembranças infantis do seu bairro nativo: Ferrol Velho, um bairro primitivamente marinheiro, com um urbanismo tradicional mas com florescente vida comercial. No livro de Conversas en Compostela publicado por M. A. Fernán-Vello e F. Pillado Mayor em 1986 dizia (pp. 15-16):

“A miña lembranza dos tempos da infáncia situa-me no Ferrol Vello; eu nascin no Ferrol Vello. O Ferrol Vello é o Ferrol mais antigo, un bairro de pescadores, primitivamente, que non era outra cousa que unha vila mariñeira semellante às da Ria enfrente do Ferrol de hoxe, por exemplo Mugardos. O Ferrol Vello, si, que rematava no Cristo, nunha esquina próxima a onde se atopa hoxe o Pazo da Capitania Xeneral, e que lle chamávamos asi, o Cristo, porque nesa esquina havia unha imaxe de Cristo crucificado aloxada na parede. O Ferrol Vello, que ali remata, era antigamente unha vila de mariñeiros con comércio de efeitos navais, muitas veces escrito en inglés, amais de castellano, nos correspondentes estabelecimentos, e un pazo da família Bermúdez cunha capela. [...]

O meu pai era empresário, e a miña vida deslizou-se durante muitos anos neste bairro, no bairro do Ferrol Vello, porque eu nascin na rua principal do bairro. En realidade, a casa en que nascin, e que hoxe pola benevoléncia dos meus paisanos está marcada por unha placa que recorda ese feito, é unha casa que dá tanto à rua de San Francisco como à Praza Vella ou Praza do Marqués de San Saturnino. Eu nascin no primeiro piso pola parte da praza Vella, pero hai un desnivel que fai que sexa baixo pola parte de San Francisco, o número 51, e mais adiante vivin frente desa casa, no piso terceiro do número 56”.

No seu poemário O trevo das quatro folhas (1944), constituído por quadras ao jeito popular, lembra o seu lugar de nascimento, ligado à «Virgem da Parrocheira» da igreja do Socorro:

Em Ferrol Velho nasci;

minha Virgem «parrocheira»

apareceu-se-me um dia

espida de pé e de perna.

E o retrato que nos faz da figura da vendedora de peixe nesse mesmo poema reflectirá talvez também algo dos seus recordos infantis da Praça Velha:

Peixeira de perna espida

que vendes o peixe fresco,

um tremor de água salgada

escorrega-te entre os peitos.

 

“– Parrochas como sardinhas!,

olhos-moles, munges, xardas!”

O sal do mar nos teus beiços

vai-che salpicando a fala.