Luís Porteiro Garea: o ideólogo do nacionalismo irmandinho

«...defender o galego [...] como meio de inteligência com Portugal e a parte de América por ele civilizada para onde vai muita da nossa emigraçom» - Luís Porteiro Garea

Segunda, 09 Novembro 2009 00:00

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A Associaçom Cultural Foucelhas homenageou Luís Porteiro Garea o passado dia 6

A.C. Foucelhas - O caderno Luís Porteiro Garea (Lugo 1889-Frades 1918) O ideólogo do nacionalismo irmandinho, editado pola Associaçom Cultural Foucelhas da comarca de Ordes, compila três artigos de Ernesto Vázquez Souza: “Luís Porteiro Garea, neofalante”, “A embaixada de Barcelona de 1917” e “Eleições no 'ano da grippe'”.

Publicados previamente em formato digital no Portal Galego da Língua, estes trabalhos constituem várias aproximações a aspectos desta figura fulcral para compreender a evolução posterior do nacionalismo galego.

Luís Porteiro Garea está enterrado no cemitério paroquial de Gafói (Frades). A sua morte prematura, em 1918, impediu-lhe assistir à Assembleia Nacionalista de Lugo, na qual, porém, tinha posto o seu pensamento, como demonstra a carta póstuma enviada a Luís Pena Novo (reproduzida no caderno). Nela pode entrever-se o carácter do luguês: preocupações eminentemente práticas, como é a “questão internacional e representação da Galiza na hora da paz”, questões de política interior, organização fiscal, jurídica, etc.

Não obstante, foi Porteiro Garea quem marcou uma viragem na linha das Irmandades de Fala, que passam de reivindicações puramente culturais às políticas. Neste sentido, o último parágrafo da carta a Penha Novo é esclarecedor:

Eleições. Visto que se falseia a vontade popular e que a eliminação sistemática dos censos, trampas, etc., e sobretudo, o deixar para conta da iniciativa privada o que deve ser da responsabilidade do Governo (qual é o problema da legalidade eleitoral). Visto o fracasso dos Governos nesta ordem, se chegam outras eleições nestes termos devemos de acudir a elas ou declararmos fora da legalidade constitucional buscando noutros procedimentos o que por via legal não se pode conquerir. (ênfase nosso)

A sua aposta política custou-lhe até um intento de assassinato ao apresentar-se às eleições por Cela Nova no “ano da gripe”, como podemos ler no terceiro dos artigos de Ernesto Vázquez. Porteiro era bem consciente disto, como explica num artigo publicado em Gaceta de Galicia, em que afirma:

Um hábil deputado besadista indicava recentemente que todo pudéramos fazê-lo dentro dos partidos velhos ou polo menos sem a vossa ajuda. É falso e ele sabe-o mui bem: eu podo provar que todos os movimentos iniciados na Galiza desde 1898 foram afogados polo terrorismo do poder perseguindo ferozmente os propagandistas como criminais por ter discrepado do critério da política.


Capa da publicaçom


Um giro historiográfico para compreendermos Galiza

Os trabalhos que periodicamente vem publicando Ernesto Vázquez Souza nos últimos anos representam um balizamento de um projeto historiográfico que pretende ultrapassar – no caso da história moderna e contemporânea, como por exemplo fez Anselmo López Carreira com a medieval – tanto a visão espanholista como a “autonomista” da historiografia compostelana, assim como o filtro das teses anticolonialistas do nacionalismo dos anos 60 e 70. Este último, se bem no seu momento foi mui meritório e necessário, na atualidade é um fator de distorção que não deixa ver a história galega anterior à guerra civil.

As propostas de Vázquez Souza são realmente inovadoras em vários sentidos:

a) na redefinição da importância da questão linguística na história da reivindicação nacional galega que, com propriedade, só atinge uma posição fulcral nos anos da Irmandade (sendo Porteiro uma boa mostra disto). Esquecer isto acarreta considerarmos toda a época sem literatura galega como de “doma e castração”, sem valorizar outros fatores, como são a hegemonia da Galiza na península em questões como o exército, a demografia, etc.

b) no questionamento da noção de “Séculos Obscuros”, em parte pola razão exposta no anterior ponto, e na recuperação e apropriação de acontecimentos importantes da história do país dentro de esquemas nacionais. É de destacar, por exemplo, que Beramendi comece a sua história do nacionalismo galego esquecendo momentos tão importantes como a Guerra dos Franceses que, porém, a primeira historiografia nacionalista (de Murguia e Vicetto) sim tinha incorporado ao discurso nacionalista.

c) no conceito de “nação minguante” para dar conta do evolução da Galiza, que chega à época de conformação da nação como estrutura de pensar-se os povos (de “imaginar-se”, na terminologia de Benedict Anderson) “já feita”.

d) assumir, como indicou o antropólogo X. M. González Reboredo, que: “a chamada invenção das tradições (Hobsbawn/Ranger) deve ser interpretada não como uma falácia prejudicial, senão como uma necessária resposta ao dilema assim expressado: ou nos inventamos nós ou nos inventam os outros”.

Estamos, pois, perante uma reescrita da história da Galiza mui interessante que, aliás, se reencontra com a tradição historiográfica (em que há que incluir para a Idade Moderna Emílio Gonçales Lopes) não distorcida polo trauma do pós-guerra. É nesta linha que, por exemplo, Lourenzo Fernández Prieto está a questionar também o conceito-ecrã do “atraso”, que tendo parte de verdade, deforma muito a visão do estado do agro de pré-guerra, onde se estava a levar a cabo um processo de modernização mui importante. Em definitivo, trata-se de dar passinhos na revisão da nossa história.

 

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