A aguda olhada do açor
Quinta, 12 Abril 2012 00:00
Por Adela Figueroa
A ave que dá nome a estas ilhas “chantadas” no meio do Oceano Atlântico.
Pode que por erro dos primeiros marinheiros que lá chegaram a ser confundida com os milhafres ou por referência à Nossa Senhora dos Açores da Beira Baixa.
De qualquer maneira o nome faz-nos lembrar a aguda olhada destas aves de rapina que sabem caçar a pequena bicharia ajudadas pela sua aguda visão e a sua rapidez de manobra. As 9 ilhas a médio caminho entre a América e a Europa semelham semeadas pela mão dalgum Deus a sacudir os dedos sobre o oceano imenso e profundo.
Neste lugar, autêntico paraíso verde de água e de vegetação tiveram lugar os XVII Colóquios da Lusofonia.
Múltiplos temas foram abordados e múltiplas foram as procedências dos ali presentes: Todos os continentes lá estiveram representados. América do Norte (EUA e Canadá), América do Sul (Brasil), África (Moçambique, Angola), Ásia (Macau) ou mesmo Austrália. A língua portuguesa e a cultura por ela exprimida foram lá a trave de ouro que ligaram esta formidável representação da humanidade.
O solo vulcânico das Açores deu o sustento e o calor humano fez a liga com que a amalgama cristalizou.
Gaia a sustentar as suas crianças. Gaia a se recriar permanentemente no fogo vulcânico nascido das profundezas das suas entranhas . Manifestadas em inúmeras nascentes de água quente e em lagos verde-azulados acochados nas caldeiras de antigos vulcões.
O manifesto que deste encontro surgiu fez apelo a aquela parte de mais nobre do ser humano, aquela que é capaz de criar a cultura e a beleza. Aquela capacidade que só o gênero humano tem de fazer literatura e de criar pensamento cientifico.
O gene altruísta que sempre acompanha ao gene egoísta fez o seu labor nesta “Xuntanza” saindo como vencedor.
Concluiu-se neste encontro que a língua pode ser um eficaz instrumento para lidar com a crise mundial que tudo parece engolir. Isso é referido no manifesto destes colóquios, como:
a) Procurar consensos entre os governos do Brasil e de Portugal para que sejam lançados cursos de língua e cultura portuguesas. Tanto para aqueles países que a tem como língua oficial, quanto para qualquer outros em que haja comunidades de falantes de português.
b)Apoio ás editoriais e procurar a cumplicidade destas no cultivo e trasmisão da língua e cultura portuguesas.
c) Criar antologias bilíngues para a disseminação de autores/as lusófonas/os.
Só por isso já os Colóquios teriam a sua razão de existir. Ainda, para mim, que assistia pela primeira vez, resultaram a ocasião dum fecundo convívio com elementos da cultura comum e da língua partilhada, que me enriqueceram como pessoa e irão ajudar-me a ver o mundo desde uma perspectiva mais ampla e plural.
Sou muito grata de ter estado em São Miguel dos Açores. De ver a Terra na sua primigênia expressão de fogo, água, ar limpo e saudável coberta da verdura das florestas e das vacas a pastar pacíficas em verdes campos. Ficam na minha retina as estradinhas bordadas de flores, as gentes pacificas e amáveis, e no meu coração as amizades feitas através de espaço e de tempo para guardá-las no cofre dos meus tesouros mais prezados.
(*) Adela Clorinda Figueroa Panisse é escritora. Foi ponente dos Colóquios com o trabalho intitulado: “O conto infantil como elemento socializador e de lazer”. Ex. O Rei da Floresta. Texto ilustrado por Celsa Sánchez.


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