Um "Pedrón de Ouro" para NEGa
Segunda, 28 Maio 2012 00:00
Por José Paz Rodrigues
Com motivo de que recentemente fosse concedido a Nova Escola Galega (em adiante NEGa) o “Pedrón de Ouro” deste ano, acho que seria muito interessante dar a conhecer a todos os meus amigos e amigas reintegracionistas da Galiza dados históricos que não podem ficar esquecidos nem ignorados. Especialmente porque, ocupando cargos diretivos em diferentes associações educativo-culturais, eu vivi muito em direto os mesmos e, em muitos casos tive que sofrer também grandes discriminações e persecuções já desde 1982, por defender na teoria e na prática a alternativa reintegracionista para o nosso idioma internacional. Que já defendiam há muito tempo Biqueira, Risco, Castelão, Vilar Ponte, Dieste, Blanco Torres, Bouça-Brei, Guerra da Cal e Carvalho.
Com este meu artigo, desde o PGL quero dar a conhecer aos mais jovens factos reais que arredor da língua se têm produzido na Nossa Terra desde a década de setenta do passado século, a maioria deles negativos. A este depoimento hão seguir outros para esclarecer muitos temas que tiveram consequências posteriores, dado que, por sorte ou por desgraça, eu os tive que viver diretamente e a miúdo sofrer.
Em 1978 foi criada a ASPG, o primeiro movimento galego de renovação pedagógica, que, depois de uma cissão muito traumática durante o ano 1982, passou a denominar-se mais tarde ASPGP (Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa), mantendo os números de registo iniciais, tanto estatal como galego. A causa principal da cissão fora precisamente o ter optado pola alternativa reintegracionista para a nossa língua, depois de publicar as Orientaçons para a escrita do nosso idioma. Com Jurjo Torres de presidente fazíamos parte da sua diretiva, entre outros, António Gil, Isaac Estraviz, Martinho Montero, Adela Figueroa, Tibério Feliz, Filipe Senem López e quem assina.
No ano 1983 celebra-se em Salamanca um Encontro Estatal de MRPs, a que assiste pola primeira vez a ASPGP, representada polo seu presidente Jurjo Torres e por José Paz como secretário. No ato de encerramento, que presidira o Ministro de Educação José Mª Maravall, comunica-se-nos que pola primeira vez o ministério vai ajudar aos MRPs nas suas atividades de renovação pedagógica e formação permanente do professorado, escolas de verão para docentes e publicações (revistas, roteiros, cadernos e unidades didáticas). Patrocinado polo MEC convoca-se o Primeiro Congresso Estatal de MRPs, que se vai celebrar no Paço de Congressos de Montjuic-Barcelona em dezembro desse mesmo ano. Pola sua história, a sua capacidade e as suas atividades, realizadas sem ajudas das instituições, o MRP ASPGP foi proposto para fazer parte da comissão estatal organizadora. Outros MRPs que apoiaram foram A. M. “Rosa Sensat”, Concejo Educativo de Castilla-León, Acción Educativa, Adarra do País Vasco, Tamonante de Canarias, Escola d´Estíu do País Valenciá, Colectivo Andaluz de Pedagogía Popular, Colectivo Pedagógico de Asturias, Aire de Baleares e as “Escuelas de Verano” de Aragón, La Rioja, Murcia, Cuenca e Extremadura.
Para preparar o mencionado Congresso, representando a ASPGP, participei eu durante quinze dias de julho de 1983 nas reuniões celebradas na casa de Marta Mata (grande pioneira da renovação pedagógica), na localidade tarraconense de Saifores. Pola minha intervenção foram aceites as propostas seguintes: conceder a NEGa, cujos estatutos tinham sido aprovados polo Ministério do Interior em novembro desse ano, três lugares para participar com voz e voto no Congresso, e como convidados polos seus especiais méritos no campo educativo (cada comunidade autónoma fazia as suas propostas), Ricardo Carvalho Calero, Basílio Losada e os portuenses Hélder Pacheco e Luiza Cortesão. Num número monográfico da nossa revista O Ensino do ano 1984 publicam-se todas as comunicações apresentadas por membros da associação. A norma galega oficial do Congresso de que falo era a própria da ASPGP, mesmo nas Atas publicadas posteriormente, que provocaram um grande protesto na Galiza por parte de NEGa, que chegou a obrigar depois a publicar umas em “castrapo”. E isto é ao que vou.
NEGa cria-se muito especialmente para a defesa com unhas e dentes da norma foneticista e isolacionista, imposta por decreto e sem debate, de forma antidemocrática e mesmo fascista no seu dia, como bem sabemos os que nos manifestáramos diante da RAG naquela altura por considerar que o ILGa tomara esta entidade da rua corunhesa das Tabernas, para impor a norma do asturiano Constantino García, que tantos estragos lhe tem causado ao nosso idioma durante mais de trinta anos, afastando-nos do tronco linguístico a que pertencemos. NEGa nasce precisamente para, no tema linguístico, opor-se à ASPGP, e esta atitude ainda permanece hoje em dia. Os artífices principais, pais da criatura, foram furibundos antilusistas como Antón Costa, Xosé Lastra, Xosé Manuel Cid e Mercedes Suárez. Precisamente esta foi uma das que viajara ao Congresso de MRPs de dezembro de 1983, representando a NEGa.
Pola sua culpa e a sua atitude tão agressiva e desagradável na primeira juntança dos participantes galegos o primeiro dia no pavilhão dedicado à Galiza, não nos juntámos mais. Mesmo chegou a questionar a presença de Carvalho Calero, diante dele, sem saber que, ademais da sua grande valia filológica, fora o criador e diretor durante anos do Colégio lucense de Fingói, um colégio modelar que aplicava as técnicas didáticas de Freinet e as da ILE de Giner e Cossío. No ato de encerramento, presidido por Maravall e os Conselheiros de Educação das diferentes autonomias, a cadeira correspondente à Galiza era a única vazia, pois o infausto conselheiro Portomenhe, que se encontrava em Barcelona!, não se dignou a assistir. Algum dia teremos que conhecer a fundo quais foram as razões, mas não é difícil adivinhar. Testemunhas de tudo o que estou a contar, ou de parte, foram López Suevos, Adela Figueroa, Rafael Mouzo, Manuel A. Rei Chao e António Espinosa.
Por isto não deve admirar nada que se lhe concedesse a NEGa este ano o “Pedrón de Ouro”, cuja Fundação foi criada em 1964 polo que, junto com Ramón Lorenzo, Dario X. Cabana, Alonso Montero, Manuel González e Méndez Ferrín, eu considero um dos mais furibundos antilusistas que existiram na Galiza. Estou-me referindo a Avelino Abuín de Tembra, que escrevia em El Correo Gallego aqueles horripilantes “Ventos Ábregos”. Por culpa dum dos que, no verão de 1983, foi retirada a ajuda económica, publicada no DOG, às Jornadas do Ensino da Galiza e Portugal, por usar a norma internacional do nosso idioma. O Conselheiro era o chantadês Portomenhe e a sua diretora-geral de política linguística outra furibunda antilusista apelidada Lamela Vilariño. Mas todos devem saber que ambos foram ao ato de abertura das Jornadas celebrado na antiga Escola Normal compostelana.
Como é habitual na Nossa Terra os isolacionistas premiam-se a si mesmos e, desde logo, NEGa merece este prémio por ter trabalhado tanto a favor da chamada “norma oficial” imposta por decreto a sangue e fogo, durante tantos anos. Mesmo quando organizam atividades com portugueses na Galiza e Portugal, escrevendo um “português cheio de gralhas”, em palavras dos próprios portugueses. Não deve admirar tampouco que depois da promulgação do nefasto decreto tantas vezes citado, o “Pedrón de Ouro” fosse outorgado a grandes defensores do isolacionismo linguístico como Méndez Ferrín (do qual me venho de inteirar recentemente que comentou que enquanto for presidente da RAG impedirá que se lhe dedique a Carvalho um Dia das Letras Galegas, e que o carro oficial que usa é o que tinha Fraga quando presidente), Alonso Montero e A Mesa e editorial Galaxia, a que se suma este ano NEGa.
Outro dia terei que falar de outras cousas relacionadas com este tema e de outras entidades e realidades como as atuações do Bloco e as editoras, o que eu chamo “máfia da cultura galega”. Porque, volto a repetir, as pessoas jovens reintegracionistas não as devem ignorar. E os que as vivemos em carnes próprias temos que, por dever, contá-las.
O artigo em imagens (*)
Foto de Marta Mata
Foto de uma reunião da Comissão organizadora do Iº Congresso de MRPs (julho de 1983) na casa de Marta Mata em Saifores (Tarragona).
Na foto Marta é a 2ª pola esquerda e ao fundo José Paz
Capa livro Orientaçons escrita (do ano 1982)
Capa livro A Educação infantil de Jurjo Torres (Coleção Cadernos de Inovação Didáctica da ASPGP)
Capa da revista O Ensino nº 4 publicado na norma reintegrada da ASPGP
Capa do livro de José-Martinho Montero Santalha publicado pola ASPGP
Capa do livro Os Maios (Coleção de Roteiros Didáticos da ASPGP)
Capa da revista O Ensino (Monográfico sobre A inovação Didática da Escola: recolhe as comunicações dos membros da ASPGP apresentadas no Iº Congresso de MRPs de dezembro de 1983 em Barcelona)
Capa do livro comemorativo em edição fac-similar da Escola d´Estiu catalana, publicado para entregar aos 500 assistentes ao Iº Congresso de MRPs de Barcelona (dezembro de 1983)
Capa das Atas do 2º Congresso de MRPs celebrado em Gandia e publicado na norma reintegrada da ASPGP (o mesmo que as do Iº Congresso (publicadas em castelhano, catalam, euskera, galego-português e bable)
Página aclaratória do livro de Atas do 2º Congresso de MRPs
(NEGa ficou encarregada de fazer a tradução para o ILG-RAG, que ao final não fez)
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(*) Didata e Pedagogo Tagoreano




































