A mestra com vocação que ama a infância, no filme “Vinte e quatro olhos”
Quarta, 08 Fevereiro 2012 00:00
José Paz Rodrigues (*) - Dedico este meu artigo a essa grande mestra que foi no CRA de Tominho, Maria González Agualevada. Natural de Banga-Carvalhinho, quando estava na flor da sua vida, com 37 anos, em junho de 2010, grávida de oito meses de uma menina que já tinha o belo nome de Alba, a morte cruel levou-no-la fisicamente. O seu esposo Óscar Diaz é também um grande mestre e eu bem sei que há saber guardar a memória de Maria.
Uma mestra sensível, alegre e digna, que mentres viveu o deu tudo polas crianças. Que no Carvalhinho sempre foi querida, porque de forma voluntária e de graça trabalhou, desde a Cruz Vermelha, por todas as boas cousas. Por isso fomos muitos os que lhe fomos dar o nosso adeus e a levaremos sempre na nossa alma e no nosso coração. Uma mestra que esteve sempre a favor da renovação pedagógica do nosso ensino e era naquela altura a presidente da associação pedagógica das Jornadas do Ensino da Galiza e Portugal. E estava a organizar muitas atividades de renovação educativa e que amava as artes e a infância. Por isto foi também uma estupenda monitora em várias edições do programa Ourense Lúdico, que desde há uns 17 anos patrocina a Deputação Provincial de Ourense.
Para render homenagem à mestra Maria Agualevada escolhim eu a propósito este filme, dirigido em 1954 polo japonês Keisuke Kinoshita. No Japão está considerado como o mais lindo filme da história do seu cinema e é muito apreciado polos cidadãos nipões. A protagonista do filme, como Maria, é também uma mestra. Uma mestra digna, alegre, entusiasta, com verdadeira vocação polo ensino, que ama a infância, que transmite ânimo e entusiasmo aos seus discípulos, que se faz querer, que ama a paz, que sabe ensinar com uma didática maravilhosa, que fomenta a curiosidade, que ensina a cantar aos seus doze estudantes (daí o de vinte e quatro olhos), que termina por ser apreciada por mães e pais. E, claro está, polos nenos e as nenas. Que é uma mestra rural muito digna. Que, com o seu labor educativo modelar e o seu profundo amor polos alunos, que vê como medram e como a terrível guerra também os vai destruindo, mostra o importante e o grandioso que é para uma sociedade ter bons mestres e mestras. Com entusiasmo, bondade, vocação e respeito pola vida e pola paz.
A protagonista, igual que Maria, é uma verdadeira mestra tagoreana. Que se põe ao lado dos nenos e faz de nena, pois para ser um mestre seguindo o modelo de Tagore, há que ser como uma criança. Existem muitos filmes lindos sobre aulas e mestres, mas este é para mim o mais lindo e sublime de todos. O digo sem temor a equivocar-me. Polo que recomendo a todos os mestres e mestras galegas, que no seu tempo livre, dediquem algum para olhar este grandioso filme do qual existe cópia em DVD no nosso país. Não só recomendo o seu visionado aos muitos docentes de toda a Galiza que passaram polas minhas aulas da antiga Escola Normal. Também a todos os outros de todos os níveis, que não tive a sorte, pola idade ou outras circunstâncias, de tê-los como meus alunos.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Nijushi no Hitomi (Vinte e quatro olhos / Sublime dedicação)
Diretor: Keisuke Kinoshita (Japão, 1954, a preto e branco, 150 minutos)
Atores: Hideko Takamine (a mestra protagonista, Hisaki Oishi), Hideki Goko, Yukio Wanatabe, Makoto Miyagawa, Takero Terashita, Kunio Sato e sete nenas e cinco nenos dos primeiros cursos de primária.
Roteiro: Baseado no romance do escritor Sakae Tsuboi. O filme recebeu muitos prémios, como o Globo de Ouro.
Argumento: No ano de 1928 Hisaki Oishi, mestra novel, chega a uma aldeia marinheira de pescadores na parte sul da ilha de Shodoshima, para ficar encarregada de uma turma de ensino primário. Vestindo roupas modernas, andando em bicicleta e com uma didática moderna, ela gera desconfiança na população local, mas rapidamente conquista as crianças. São sete meninas e cinco meninos (os vinte e quatro olhos do título do filme), e com eles vai vivendo diversas etapas da vida, ao longo de um período de vinte anos, entre casamentos, mortes, desfortúnios da pobreza e da guerra. O seu labor docente vai ficar para sempre no fundo da vida e dos corações de seus alunos que sobrevivem às adversidades.
Análise do Filme:
O filme que comentamos é realmente sublime, constituindo um canto à profissão docente. Dirigido com grande sensibilidade por Kinoshita. Com belas imagens de paisagens, que mesmo nos lembram as nossas das costas do Pindo e Carnota. Por vezes parece que estamos na Nossa Terra. O romance em que se baseia é um cuidado desenho do sofrimento feminino de uma mestra com grande consciência social. A excelente mestra protagonista empenha-se de corpo e alma na educação dos seus 12 alunos, preparando-os para a vida, desde a sua inocência inicial, até o choque com “o mundo real”. É tal a sua dedicação, que tem que aguentar as reprovações de outros docentes, que acreditam que exagera, e que desperta inclusive suspeitas de comunismo.
Há muitos momentos propícios para as bágoas, destacados com uma nostálgica música, por essa corrente amorosa que se estabelece entre a mestra protagonista e os seus alunos. Também planeja a sombra da guerra, que poderia afetar os jovens de modo fatal. A contemplação nostálgica de uma foto escolar feita no primeiro ano, e a continuidade entre gerações, dão unidade ao conjunto, embora o terceiro tramo do filme fique algo desligado do resto. Estamos diante de um filme tão maravilhoso, tão pedagógico, tão autêntico, tão lírico e tão profundo, que nenhum docente, seja do nível que for, deveria perder de ver.
Para Refletir:
O Mestre, segundo R. Tagore: “Para ser mestre de crianças é completamente necessário ser como uma criança, esquecer o que sabemos e que chegamos ao final dos conhecimentos. Se se quer ser um verdadeiro guia de crianças, não há que pensar em que se tem mais idade, nem que se sabe mais, nem nada polo estilo; há que ser um irmão maior, disposto a caminhar com as crianças polo mesmo sendeiro do saber elevado e da aspiração. E o único conselho que vos posso dar nesta ocasião se tendes que dedicar-vos a ensinar aos filhos do homem e da mulher, é este: que cultivedes a alma da criança eterna”. De um discurso pronunciado por Tagore numa das suas viagens ao Japão, perante os estudantes da Escola Normal de Tóquio, que estudavam para serem mestres de educação primária.
As mestras Maria Agualevada, e a protagonista do filme, Hisaki Oishi (apelido que significa seixo rolado), respondem plenamente ao modelo de mestre que defendia o grande educador bengali e indiano. Que criou no dia 22 de dezembro de 1901, em Santiniketon, a primeira escola nova do Oriente, com o nome de “Morada da Paz”.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.


























