A extensão do galego segundo Paz Andrade: entre Návia e Corumbá/Paraná

Defende que a maior confluência da língua de Galiza e Portugal também beneficiaria a cultura hispana

Terça, 15 Novembro 2011 00:00

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Por Joám Manuel Araújo

No meses finais de cada ano é costume que cheguem às livrarias novidades sobre a figura a quem se lhe dedica o seguinte Dia das Letras Galegas. Em 2012 essa efeméride honrará a personalidade de Valentín Paz Andrade (Lérez, 1899-Vigo, 1987), quem no século XX salientou pela sua atividade nos campos Político, Económico, Jurídico, Jornalístico, do Ensino e Social. Também, é claro, no Literário, com produtos de poesia e ensaio, entre os quais salientam títulos como Pranto matricial (1954), Sementeira do Vento (1968), Cen chaves de sombra (1979), Castelao na luz e na sombra (1982) ou Galiza lavra a sua imagem (1985), entre outros especialmente significativos, como os que serão citados a seguir. Foi representante galego nas Cortes do Estado Espanhol, e membro da Real Academia Galega, da Academia Galega de Ciências, e também da Comissão para a Integração da Galiza no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Os seus múltiplos contributos serão com certeza analisados e valorizados por muitos estudiosos nos próximos meses. Já porventura agora mesmo, por ter sido ele representante galego no Senado da Espanha, e estarmos em nova campanha para eleições que vão renovar as Câmaras legislativas espanholas. A sua amizade com o Brasil será salientada, sobretudo o seu interesse por João Guimarães Rosa, a quem dedicou o volume A Galecidade na Obra de Guimarães Rosa, que foi o seu discurso de ingresso, em 1978, na Real Academia Galega, e publicado pela editora O Castro. Nesse trabalho foca, com acerto e audácia, diferentes aspectos que aproximam a cultura galega e a do Brasil, que o acadêmico brasileiro Paulo Ronâi salienta na apresentação do livro.

Em diferentes instantes da sua intensa trajetória, Paz Andrade preocupou-se pela Língua Galega, e ofereceu propostas e alternativas que, neste século XXI, vale a pena lembrar. Neste humilde recanto bibliótafo vão ser referidas apenas três, valiosas pelo tempo e espaço em que se revelaram:

  1. Num volume1 publicado em Buenos Aires, em 1959, afirma ser a Língua Galega, no quadro do Estado Espanhol, (pp. 145 e seguintes): “un instrumento eficaz [...] Sólo el gallego puede utilizarse como vehículo para la relación con el Brasil”. Critica a “postergación” do (p. 153): “gallego-portugués, lengua internacional en la historia y en la realidad, hablada por más de setenta millones de personas, repartidas en cuatro continentes”.

  2. Em 1968 publica na Galiza um trabalho significativamente intitulado “A Evolución Transcontinental da Língua Galego-Portuguesa2”. Nele manifesta-se favorável para fazer “os axustes necesarios”, com o intuito de inserir o galego “na área falante do portugués”, e insistindo nas vantagens que isso suporia para a comunidade galega.

  3. E em volume posterior3, La marginación de Galicia, editado em Madrid em 1970, inclui (p. 103) um mapa em que singulariza Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Galiza, a na altura Guinea portuguesa e “otros territorios”, afirmando que “en la escala de los grandes idiomas neo-latinos, al galaico-portugués corresponde el tercer lugar. Pero tras el inglés […] es también el tercer sistema lingüístico de las Américas”. Afirma na continuação (p. 105): “Si quisiéramos poner linderos al territorio lingüístico, básicamente uniforme, del gallego-portugués, tendríamos que situar el del Norte en Navia y el del Oeste en Corumbá, con el Atlántico en medio”. Acrescenta que a comunidade de falantes dessa língua (p. 111) “se extiende desde el Navia al Paraná”. Defende uma maior confluência das línguas da Galiza e Portugal, de que também “saldría beneficiada la cultura hispana”, segundo valoriza.

A extensão da Língua Galega não se limita, pois, a quatro províncias e apenas mais alguns concelhos de outras comunidades da Espanha, mas segundo este Galeguista situa-se entre as terras ibéricas e as do Brasil, em quatro continentes. Nesses trabalhos há plena consciência de uma unidade lingüística Galego-Portuguesa. Unidade dentro da diversidade,é claro, como qualquer outra língua (assim acontece com o espanhol, o inglês, o francês, etc., bem diferentes, ponhamos por caso, em Espanha e América, nos EUA e Inglaterra, na França e no Canadá, etc).

São idéias4 que merecem ser discutidas e trazidas para a atualidade. Aqueles 70 milhões de falantes de Língua Portuguesa em 1959 ultrapassam hoje os 200 milhões; aquela terceira posição do (Galego)-Português entre os idiomas neolatinos melhorou é agora é a segunda; e aqueles dois países em que era oficial a Língua (Galego)-Portuguesa (Brasil e Portugal) são hoje 8 Estados independentes que constituem a pujante e multicontinental Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP); para além, evidentemente, da Galiza, onde desde a década de 1980 é oficial a Língua Galega.

As possibilidades de progresso e de riqueza para a Comunidade Galega por aproveitar essa oportunidade que defendia há mais de meio século Paz Andrade (e acrescentá-la à já muito bem aproveitada relação com a comunidade de países de fala espanhola) multiplicaram-se, e parece despropositado não colocar-se essa questão como prioridade na agenda cultural e política.

Paz Andrade assim o evidenciou, não só nessas propostas teóricas, mas também na prática v. gr. nos campos Cultural e Econômico: no Cultural, através do relacionamento direto e dos estudos da cultura e literatura desses países (sobretudo do Brasil: Guimarães Rosa, Guilherme de Almeida e outros); ou no Económico, pelas relações da empresa multinacional galega Pescanova, de que ele foi co-fundador e dirigente, e que conseguiu estabelecer-se para produzir em países da CPLP.

É por isso que se produz a emergência deste assunto da confluência linguística Galego-Portuguesa para a atualidade a cada pouco, com polémicas contínuas. E assim acontecerá mais uma vez, muito previsivelmente, nestes próximos meses, renovado a polémica o seu interesse por esta celebração de homenagem a uma personalidade com tantos aspectos destacáveis na sua intensa biografia como é, com certeza, a de Valentin Paz Andrade.

 

Notas:

1 Paz Andrade, V., (1959), Galícia como Tarea, Buenos Aires, Ediciones Galicia. Foi publicado no mesmo ano que Galaxia editava em Vigo Lua de Alén-Mar, de Ernesto Guerra da Cal, que levava à prática essa aproximação que ele defendia para a Língua Galega.

2 Paz Andrade, V., (1968), “A Evolución Transcontinental da Língua Galego-Portuguesa”, incluído no livro O Porvir da Língua Galega, Lugo, Círculo de las Artes, nas pp. 115-132.

3 Paz Andrade, V., (1970), La Marginación de Galicia, Madrid, Siglo XXI.

4 Na produção de Paz Andrade tem-se ocupado muitas outras vezes da questão linguística, mesmo no seu Epistolário, como se verifica no volume de cartas editado em 1997 pela já citada editora O Castro.