'A Máquina de Fazer Espanhóis', resenha de Raquel Miragaia

O conjunto consegue produzir uma leitura atractiva, onde a linguagem é cuidada, por vezes lírica, e não cai nos excessos do retorcimento da técnica

Quarta, 03 Novembro 2010 00:00

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Raquel Miragaia | Foto: Luz Castro

Raquel Miragaia - Confrontar uma personagem com a morte é sempre um bom ponto de partida para aprofundar na sua psicologia. Mais ainda, é um bom ponto de partida para confrontar-nos a nós, leitoras, com essa parte inevitável da viagem. Assim é como parte A máquina de fazer espanhóis, do premiado Valter Hugo Mãe, parte da morte ou da proximidade dela.

O protagonista, José Silva, sofre a perda da sua mulher e depois desta, da sua identidade quando é jogado num lar de idosos sem que ninguém pergunte a sua opinião ao respeito. A forma em que o protagonista aprende a aceitar a nova situação, conhecer os seus parceiros e como com eles constrói um último caminho na viagem é a história deste romance. Sobre este esqueleto, o autor faz um percurso pola história recente de Portugal, polas motivações dos que calaram ante a ditadura salazarista, pola relação um tanto ambígua que Portugal sempre teve com a Espanha (embora esta parte é anedotica de mais para justificar o título). Esse percurso, por vezes muito irónico, rodeia sem atrapalhar a história principal. Uma história de velhos e velhas que lutam contra a indignidade que parece ser inerente à velhice, contra a infantilização que parece inevitável no trato com os idosos.

Talvez a força da personagem principal vai decaindo ao longo do romance, e a tensão narrativa nem sempre é igual de eficaz. Mas o conjunto consegue produzir uma leitura atractiva, onde a linguagem é cuidada, por vezes lírica, e não cai nos excessos do retorcimento da técnica. E, sobretudo, consegue uma grande empatia com as personagens tratando um tema, certeza, muito delicado.

Raquel Miragaia (Vilalva, 1974)

Estudou as carreiras de Filologia Galego-Portuguesa e Filologia Hispánica na Universidade de Santiago de Compostela. Exerce a profissom docente desde o ano 2000. Publicou a sua primeira novela, Diário Comboio, em Dezembro de 2002 em coediçom entre a AGAL e Laiovento. Tem publicado colaboraçons em revistas e jornais como Mealibra (Portugal), Agália (Galiza), Cuadernos de Pedagogia (Catalunha) ou Fanzine 300 (Galiza), ou para uma peça do artista Mauro Trastoy. Em 2005 publicou Em Tránsito, um livro de contos publicado por Difusora, e também à venda na Imperdível. O seu último trabalho é O décimo terceiro mês, na coleçom O Lápis do Taberneiro (Ediçons do 13).

 

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