Mário Eduardo Viaro: «O conceito de língua é complexo, mas sobrepõe-se normalmente o político e não o puramente linguístico»

«A Etimologia, por meio do reconhecimento dos radicais, é de grande auxílio para a compreensão da ortografia portuguesa»

Terça, 26 Julho 2011 00:00

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Viaro é professor doutor da área de filologia e língua portuguesa da Universidade de São Paulo

José Carlos da Silva - O Portal Galego da Língua conversou com um dos maiores etimólogos do Brasil, Mário Eduardo Viaro, que lançou em 2011 o livro Etimologia (Editora Contexto, 336p, 2011), já considerado obra de referência na área, pois preencheu um vazio de décadas sem a publicação de um tratado sobre a origem das palavras.

Viaro é professor doutor da área de filologia e língua portuguesa da Universidade de São Paulo, mestre e doutor em Filologia Românica pela Universidade de São Paulo, pós-doutor pela Universidade de Coimbra, tradutor juramentado de língua romena, colunista da revista Língua Portuguesa da Editora Segmento.

PGL: Qual a importância da Etimologia no ensino de Língua Portuguesa?

Mário Eduardo Viaro: A Etimologia, por meio do reconhecimento dos radicais, é de grande auxílio para a compreensão da ortografia portuguesa (por exemplo, quando se usa c, ç, ss, sc etc.), para o entendimento da estrutura da nossa língua, seja no tocante às suas irregularidades, seja no julgamento das formas preconizadas pela norma escrita, seja na dissipação de preconceitos e ideias não-fundamentadas sobre as línguas em geral e a portuguesa, em particular.

PGL: Como deve (ou deveria) ser ensinada a origem da Língua Portuguesa para despertar interesse em nossos alunos?

MEV: Penso que um bom caminho é a apresentação dos radicais e um modo bastante frutífero é a compreensão da produtividade dos particípios latinos. Num livro meu, Por trás das palavras (São Paulo: Globo, 2004), apresento essa ideia logo de início e desenvolvo-a em centenas de exemplos. Penso que quando o aluno percebe que os mesmos radicais estão presentes em palavras muito distintas e que todas estão enredadas no mesmo sistema, a satisfação seja bastante grande. Tive a oportunidade de verificar isso quando participei da criação do Beco das Palavras, no Museu da Língua Portuguesa, junto com o Marcelo Tas.

PGL:  Na revista Etimologia, no excelente artigo "O parentesco Medieval", o senhor afirma "só por uma questão geográfica e política poderíamos distinguir a língua portuguesa da galega em alguns contextos e há discussões pró ou contra" (pág. 24). Isto significa que galego e português fazem parte da mesma língua?

MEV: Eu não disse isso, de modo algum. Afirmei que há os que defendem que não são a mesma língua e há os que defendem o oposto. O conceito de língua é complexo, mas sobrepõe-se normalmente o político e não o puramente linguístico. Galego e português são línguas independentes há muito tempo do ponto de vista da sua identidade, independentemente da grande semelhança que exista entre eles. Formas de expressão mais distintas são por vezes conceituados como dialetos da mesma língua, como ocorre com o alemão suíço e o alemão oficial.

Mas nem o conceito de língua nem o de dialeto são cientificamente sustentáveis, quando entram em jogo os dois pontos de vista principais do estudo linguístico, a saber: a história das palavras e a sua função comunicativa. Na Iugoslávia, por exemplo, o bósnio, o croata e o sérvio se consideram línguas distintas, independentemente se houver ou não maiores semelhanças entre eles do que entre dois dialetos do sérvio, por exemplo. O mesmo ocorre com o holandês e com o flamengo, com o catalão e com o valenciano etc.

No entanto, mesmo na Espanha, negar-se a existência, por exemplo, do aragonês ou dos bables leoneses, justamente por sua situação agonizante. A ausência política gera por vezes o paradoxo que confunde a existência de uma língua com sua vitalidade. Uma pessoa moribunda não é uma pessoa morta, muito menos uma pessoa que não existe. Em língua, os ânimos costumam confundir essas situações.

PGL:  E por que ainda existem "discussões pró ou contra", onde alguns pesquisadores preferem falar em "português arcaico" ao invés de galego-português.

MEV: Novamente, português arcaico se justifica somente do ponto de vista político, uma vez que Portugal se emancipou no século XII. Uma ruptura política se reflete, cedo ou tarde, sobretudo em situações de isolamento em divergências de expressão. A distância também favorece a divergência. Contudo, o contato próximo favorece o movimento contrário, de convergência.

Não tenho dados para afirmar se na Idade Média, as fronteiras de Portugal e da Galiza não perderam o contato, no entanto, imagino que há regiões novas conquistadas que perderam contato completamente com o que se passava fora do reino de Portugal. Isso justifica separar os dialetos portugueses dos galegos e formar isoglossas de fenômenos linguísticos que, por vezes, concordam com as fronteiras políticas, mas essas mesmas isoglossas nem sempre são dessa forma, assim como não era com o leonês e, posteriormente, com o castelhano. Nesse sentido, haveria logo cedo um português arcaico e um galego arcaico que, a princípio se equivaliam (no tal galego-português, que só atingiríamos por reconstrução, assim como fazemos com o indo-europeu) a partir dos dialetos subsequentes portugueses e galegos. Esses dialetos terão peso distinto no estabelecimento tanto da norma falada quanto da escrita, uma vez que as duas línguas foram separadas politicamente.

Algo semelhante ocorre na Suíça com o romanche (a chamada quarta língua oficial suíça). Um romanche escrito padrão só surgiu no fim do século passado. Antes disso, havia cinco modos de grafar, cinco gramáticas normativas etc. Algumas mascaravam uma fragmentação dialetal ainda maior. A fragmentação se deu por causa da capital dos Grisões deixar cedo de falar romanche, substituindo-o pelo alemão, ao passo que as demais áreas tiveram histórias distintas e, como na Iugoslávia, acirramento da diferença devido a problemas de ordem religiosa entre católicos e protestantes. É difícil convencer um sobresselvano que ele fala o mesmo romanche de um valáder, pois há pronúncias, vocabulários e sintaxes distintas. Mesmo os sobresselvanos têm duas grafias distintas, dependendo se o falante é católico ou protestante. A fragmentação é um fenômeno natural nas línguas, acirrados pela política. A política, porém, é mais eficiente na uniformização. Nem sempre a koiné nasce espontaneamente.

PGL: Qual a semelhança ou proximidade do galego com o falar caipira paulista e brasileiro?

MEV: Essa pergunta é difícil, porque não conheço a fundo o galego para responder isso, mas de qualquer forma, encontrei já muitas semelhanças entre o caipira paulista e os falares indoportugueses, descritos pelo padre Rodolfo Dalgado no começo do século XX e hoje praticamente extintos. Há muita coisa a ser investigada nas línguas. Descobri recentemente que o falar crioulo de base portuguesa da Ilha Reunião, falado no Oceano Índico, tem muitas palavras do português, pois grande parte da população proveio da Índia e trouxe consigo as palavras portuguesas ali usadas desde o século XVI. Só costumo afirmar após pesquisar muito.

PGL: O destaque alcançado pelo Brasil no cenário internacional, poderá resultar em uma nova internacionalização da Língua Portuguesa 500 anos depois?

MEV: Não sou a pessoa mais otimista para falar sobre isso. Acho que há ainda muita indolência e duvido se os investimentos estão indo na direção certa. Há povos que nem se preocupam com isso. Os holandeses, por exemplo, não se chateiam nem um pouco em se expressar em inglês. Todos são bilíngues, praticamente. Acho que língua e economia só estão juntas quando de fato há algo muito autêntico a ser exportado. A terminologia da informática é toda em inglês porque os americanos é que criaram tudo nessa área. O francês já teve papel parecido ao difundir sua cultura no século XIX. Penso que, se o Brasil se tornar um país rico, obviamente algumas palavras se internacionalizarão além das que já estão aí (nomes de plantas, animais tropicais e outros nem tão bonitos assim, associados à pobreza e à prostituição), mas sou bastante cético se ofereceremos algo inédito que cativará o mundo. Não sei se a nossa criatividade chega a tanto. Os bens de consumo para serem inventados e difundidos globalmente hoje necessitam não só de boas cabeças, mas de investimento maciço em educação e ciência.

PGL: E como o Brasil pode auxiliar na reintegração galega ao universo dos países lusófonos?

MEV: Sinceramente, não sei se isso será uma prioridade. A Galiza tem suas particularidades e custou muito até conseguir sua autonomia face ao castelhano depois da ditadura franquista. Perder suas peculiaridades é terrível também para a academia. Em Guiné-Bissau e no Timor há um esforço para que o português substitua as falas locais. Para mim, isso é uma perda irreparável, pois o material vivo falado é irrecuperável após injetar-se na sociedade afirmações normativas embasadas em achismo. Isso dificulta a história da língua, uma vez que formas muito regionais são pouco registradas por desinteresse de todos (inclusive dos falantes que sofrem de baixa auto-estima). O falar crioulo de Cabo Verde revela maravilhosas etimologias. O galego também. Reintegrar tudo, buscando uma unidade utópica, para mim, seria uma perda lamentável.

 

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