Psicopata no trabalho, psicopata na cama

Quarta, 19 Março 2014 00:00

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Por Edelmiro Momám (*)

Cinema e realidade

Os psicopatas estão na moda. Dum tempo a esta parte, é raro Hollywood fazer um filme ou série de televisão sem psicopata. Mas, para além da imagem estereotipada do psicopata sádico que come o fígado cru dos seus convidados com estes ainda sentados à mesa e a olhar para ele com ar de incredulidade, existe um outro psicopata mais de andar por casa, um psicopata que não gosta do fígado humano cru e, se gosta, é inteligente demais para arriscar-se a ir à cadeia por uma questão assim tão mundana, havendo como há muitas outras maneiras igualmente macabras e entretidas de fazer mal sem se expor tanto.

De facto, nem todos os psicopatas são sádicos. Muitos fazem mal por razões meramente utilitaristas. Narciso, o psicopata vive para alimentar o seu insaciável ego, frequentemente acumulando riqueza e poder mas, por vezes, nem isso. Carente de empatia e biologicamente inabilitado para o remorso, o nosso Maquiavel não duvidará em mentir, conspirar, em manipular, machucar e destruir a quem for e como for para lograr os seus objectivos.

Demografia

Como nos filmes de silandeiras invasões marcianas, eles acham-se entre nós, ainda que frequentemente não demos por eles. Segundo as estatísticas, se você conhece mil pessoas, conhece quando menos 10 psicopatas. Já num ambiente corporativo, bem poderiam ser 30. Se frequenta o pessoal das altas finanças de Wall Street, entre esses seus 1000 achegados poderia haver até 200 psicopatas, que seriam entre um quarto e um terço de milhar se estivesse a ler isto desde a prisão.

Falando de prisões, um recluso americano reflexionava sobre as vantagens evolutivas da psicopatia da seguinte maneira: “Durante toda a história da humanidade as pessoas violentas gozávamos dum lugar privilegiado na sociedade. Éramos guerreiros respeitados. Agora apodrecemos no caldeiro”. É mesmo assim.

Porém, se reparamos em que a percentagem de psicopatas entre os altos executivos e gente das finanças está muito próxima da percentagem de psicopatas entre os presidiários, poderíamos estar tentados a concluir que a crueldade e a carência de escrúpulos do psicopata, cuja base biológica se ache provavelmente a nível da amígdala, são também características muitos apreçadas na sociedade moderna, sempre que se mantenham controladas dentro de parâmetros aceitáveis sem chegar o sangue ao rio.

E não é essa a única vantagem evolutiva do psicopata. Normalmente têm um cociente intelectual superior à media. Carentes de empatia, toda a sua capacidade intelectual concentra-se na análise fria e racional. São mentirosos compulsivos, mas é precisamente essa carência de empatia, resultado provavelmente de diferenças fisiológicas no lóbulo frontal do cérebro, a que faz com que possam relatar as histórias mais inverosímeis de maneira muito convincente sem pestanejar nem apartar a olhada da do seu interlocutor/víctima. São também resolutivos e muito assertivos, fruto talvez dos seus elevados níveis de testosterona.

Elevadas concentrações de testosterona que se observam tanto nos psicopatas machos quanto nas fêmeas. Ah, testosterona, essa hormona cruel e poderosa… mas, um momento, dissemos fêmeas? É que acaso há psicopatas fêmeas? Havê-las há-as, embora, para regozijo das feministas, a sua proporção é muito inferior à dos varões. Aplicando estrictamente o teste de Hare, teríamos apenas uma mulher psicopata por cada vinte homens. Porém, estudos mais recentes sugerem que os testes de Hare foram desenvolvidos tendo em conta fundamentalmente a população psicopata masculina (cousas da demografia criminalista e do patriarcado) e que elas, as mulheres psicopatas, são, fenotipicamente, um bocadinho esquisitas. Algumas investigações sugerem que uma estimação mais ajustada daria por volta dos sete machos psicopatas por cada mulher psicopata.

Psicopatas no ambiente laboral

Já apontamos acima que o poder atrai ao psicopata como o mel às moscas. As profissões com maiores percentagens de psicopatas são aquelas mais proclives aos abusos de poder (gerente de empresa, policial), aquelas de mais prestígio social (cirurgião), e aquelas nas que as suas dotes para o engano e a mentira são mais apreciadas (advogado, político, jornalista, sacerdote). As menos propícias para o psicopata são aquelas nas que as relações humanas e a empatia resultam fulcrais na quotidaneidade da profissão (enfermeira ou médico generalista, por exemplo).

De maneira recíproca, o poder ama o psicopata. A maioria das pessoas mostrariam-se reluctantes a especular com o preço do arroz sabendo que, como consequência da sua cobiça, homens, mulheres e crianças iriam morrer de fome. O psicopata, pola contra, não tem problema com isso. Eles dormem perfeitamente à noite façam o que fizerem. Por isso são tanto apreçados no mundo das altas finanças. Se você o que quer é levar a cabo uma drástica redução de pessoal, um psicopata é justo o que você precisa. De facto, saiba que há empresas que contratam apenas psicopatas e alguma viu aumentar sua productividade num 20 %. Os estragos e o dramas pessoais que estas estratégias provocaram estão ainda por quantificar.

Eu, que nem sou psiquiatra nem criminalista, virei interessado polas psicopatias precisamente no contexto laboral. Há anos tive um chefe psicopata. Não dos particularmente sádicos, se não mais bem do tipo utilitarista. Em pouco mais de um mês diagnostiquei-o e escrevi um relatório que foi acolhido com um certo cepticismo pola direcção. A seguir abandonei o centro de investigação. Em Janeiro deste ano 2014, o director do centro convidou-me a visitá-lo. O cepticismo inicial virou certidão. Já não há qualquer dúvida. Várias das pessoas com mais talento foram abandonando ao longo dos anos o departamento dirigido polo psicopata. Outros parecem ter ficado num estado de ansiedade crónica, algum até virou fumador, sem tê-lo sido nunca. Mas o psicopata continua ai, e não sabem muito bem o que fazer dele.

A consciência deste problema fez com que identificar os psicopatas durante o processo de selecção tenha virado um elemento fulcral para os departamentos de recursos humanos. De facto, o próprio Hare e outros têm elaborado novos questionários especificamente para este fim e o seu livro “Snakes In Suits: When Psychopaths Go To Work” (Serpentes de Traje: Quando os Psicopatas Vão Trabalhar) [1] virou uma obra de referência no campo.

Psicopatas nas relações pessoais

Se o ambiente de trabalho pode fornecer ao psicopata um caldo de cultivo perfeito para as suas maquinações, o terreno das relações pessoais permite-lhe uma destruição muito mais completa, emocional e física, por vezes literalmente, da víctima. Não admira que também neste campo tenham proliferado nos últimos anos os manuais de diagnóstico e os grupos de ajuda.

Entre os primeiros, cabe destacar o bestseller de Sandra L. Brown “How to Spot a Dangerous Man Before You Get Involved” (ou “Como Detectar um Homem Perigoso antes de Virar Envolvida”) [2]. Artigos como o de Kiri Blakeley no Huffington Post [3] oferecem, de maneira esquemática, algumas das chaves para o diagnóstico. Porém, estes trabalhos também costumam partir da base de que o psicopata é sempre ele e a víctima sempre ela.

Mas, bem ao contrário, a minha motivação para escrever este artigo é um caso de alguém muito próximo. Um amigo polo que tenho uma grande estima e consideração, e que acho estar envolvido numa relação com uma psicopata.

Contrariamente ao caso do meu chefe, no que fui capaz de fazer um diagnóstico em questão de semanas, no caso do meu amigo, o diagnóstico demorou anos antes de virar concludente. Evidentemente, a distância jogou um papel determinante nesta demora, mas também foi fulcral o facto de ser a psicopata uma mulher, o qual racha em certa maneira com os estereótipos inconsciente que eu pudesse albergar tanto a respeito da psicopatia quanto da “condição feminina” (que Santa Simone de Beauvoir me perdoe).

Os primeiros sintomas que observamos com grande alarma foram a deterioração geral do estado de saúde física e anímica da víctima assim como a tendência ao distanciamento a respeito dos seus círculos mais próximos, aos que parecia culpar de todos os seus males. A seguir, demo-nos conta de que, empregando habilidosamente a adulação, o victimismo e outras artes (vejam-se os pontos 1-3 no artigo de Blakerey), a psicopata virara “amiga” e interrogara de maneira sistemática e minuciosa todos e cada um dos achegados da víctima para obter informação sobre os pontos débeis desta. Informação que (analisada com a ajuda involuntária da sua própria terapeuta!) depois empregaria para manipular a víctima e, tecendo uma aranheira de calculadas mentiras, tentar semear a discórdia num caótico todos contra todos sobre o qual poder reinar, ela, única amiga de todos e cada um.

O que me pôs sobre a pista para distinguir a psicopatia da simples malícia, para além do facto de me ter documentado previamente por causa do meu ex-chefe (obrigado, amigo), foram uma série de relatos de pessoas com experiências similares e que coincidem ponto por ponto com o que eu próprio estou a observar [4].

Conclusões?

A modo de conclusões que não vão concluir nada, quisera sublinhar dous pontos.

O primeiro é que, embora a frequência deste tipo de casos seja menor, os homens expostos a este tipo de maltrato podem achar-se numa posição ainda mais vulnerável do que as mulheres. Porque, se já é a cotio complexo que uma mulher se reconheça víctima, o orgulho masculino somado às expectativas sociais tornam-no ainda mais complicado no caso dos varões. Por exemplo, a reacção do meu amigo perante este artigo, sem sequer tê-lo lido, foi ameaçar com levar-me ao julgado (por acosso?), o qual dá uma ideia do estado psicológico no que se encontra.

O segundo ponto tem a ver com as possíveis soluções. Muita gente acha que o seu amor pode “curar” o seu ou a sua charmante psicopata. Não pode. É um problema fisiológico, provavelmente com uma base genética. Por muita adulação e muitas mostras de amor tiradas de comédias românticas que o psicopata fizer, ele está biologicamente incapacitado para nos amar e biologicamente condicionado para nos fazer mal.

A melhor maneira de sair airoso duma relação com um psicopata é cortar de raiz e afastar-se completamente. Sem mirar atrás. O psicopata não no-lo vai pôr fácil. Empregará todas as armas ao seu dispor para continuar a torturar a víctima. Até se já tinha fartado dela, depois de lhe ter sugado o sangue, e até se já tem uma outra vítima toda novinha do trinque e mais interessante, o psicopata não aceita o “fracasso”. Vai perseverar. Fingindo doenças ou até auto-mutilando-se, vai jogar, mais uma vez, a víctima, para torturar, com báguas de crocodilo nos olhos, a, esta sim, verdadeira víctima através dum sentimento de culpa e duma compaixão que o psicopata não pode sentir mas que aprendeu a manipular de maneira magistral.

 

Referências

[1] BABIAK, P., & HARE, R. D. (2006). Snakes in suits: when psychopaths go to work. New York, Harper Business.
[2] BROWN S. L. (2005). How to Spot a Dangerous Man Before You Get Involved. Alameda, CA, Hunter House.
[3] http://www.huffingtonpost.com/2013/12/07/dating-a-psychopath_n_4378946.html
[4] http://signsofapsychopath.com/female-psychopaths/ (duas páginas)


(*) Blogue de Miro Momám.