Oriente contra Ocidente
Segunda, 17 Março 2014 00:00
Por Artur Alonso Novelhe
Por causa dos recentes confrontos geoestratégicos, a luta silenciosa entre Emergentes e Ocidente está a tomar um rumo novo mais à luz das câmaras e os fotogramas, ainda que tergiversado pelos interesses diferentes das mídias de referência.
Após a queda da União Soviética, o cenário de contágio viral e expansão das ondas de poder dos distintos contendentes pela hegemonia global tem mudado radicalmente os atores e as formas de luta.
Contendas nascidas da descolonização, no quadro da Guerra fria, que tinham sido travadas pelas forças pró-ocidentais contra os nacionalismos seculares - laicos apoiados pola China ou pola URSS, são agora reminiscências do passado traduzidas em combates pelo alinhamento regional em favor e em contra dos poderes emergentes ou bem ocidentais.
Desde a I Guerra do Afeganistão – prelúdio do afundamento soviético – o cenário de intervenção no terreno (na Ásia) em procura de alianças que garantam o domínio duma região vital para quem quiser dominar o mundo (região que guarda a maior parte das reservas de hidrocarbonetos do planeta, assim como seus portos de saída e rotas de distribuição; além de conter as plataformas para exportação das maiores fábricas de manufaturas globais – com mais da metade do comércio marítimo navegando pelas suas águas...); tem mudado radicalmente.
Das lutas anticoloniais e posterior tomada de partido pelo bando ocidental ou socialista, próprio do período de guerra fria, temos passado a luta do islã contra islã, num curioso desempenho com policromia diversa de milícias, em guerras entrelaçadas, onde a modo de resumo o mundo sunita aliado aos Emiratos Árabes e a Turquia (último actor a entrar com força na Guerra da Síria), cujas elites governantes são a sua vez aliadas do Ocidente, está em confronto permanente com o mundo do islã xiita aliado do Irão, que á sua vez tenta tecer alianças com a Rússia e a China.
Devido a esta deriva geoestratégica e a necessidade Ocidental de expandir também na Europa o seu domínio ate a mesma fronteira da Federação Russa, com o intuito de encurralar no continente Moscou, para deste jeito impedir a criação dum poder Russo com capacidade de intervenção rápida na Europa e Ásia, junto da também prioridade de estabelecer um poder no Oriente Próximo mais favorável à sobrevivência e aos interesses do Estado de Israel – inércia que leva consigo a queda do regime sírio e o enfraquecimento e posterior derrubo da milícia xiita Hizbollah no Líbano; a vez que tratamos de evitar um controlo total comercial e militar da China nos mares do longínquo oriente; impulsa um cenário a meio e curto prazo de instabilidade completa na Ásia.
Este cenário de incerteza provoca medo e desconfiança. Ao igual que o Ocidente se sente ameaçado pelo poder em ascensão dos Emergentes, muitos países da região estão sentindo-se ameaçados pelas manobras ocidentais, criando as condições propícias para que Estados e nações com interesses diferentes de conciliar, devido a realidades políticas e socioculturais diversas, possam criar uma frente em principio diplomática – de ajuda mútua, que pode ter um quadro de ação do mesmo Líbano até os confins da China.
Rússia, Irão e China seriam os eixos fundamentais desta conexão. E mesmo esta aliança poderia vivificar no terreno atuações conjuntas de tipo politico ou militar, mais ou menos encobertas.
No que atinge à administração Obama, intervenções diretas no Iraque, Afeganistão, Líbano, Iêmen, Líbia... têm sido substituídas por uma política de policiamento e comandos de ação rápida que permitem ao poder ocidental virar governos não afins e que puderam ser considerados, a curto ou a longo, inimigos diretos ou possíveis aliados dos poderes regionais emergentes não vassalos do Ocidente – que a longo prazo poderiam ser concorrentes na corrida pelo controlo planetário.
Habilmente a administração Obama tem mudado a doutrina Bush de uso da força convencional, pelo uso mais subtil da maquinaria que combina meios tecnológicos, meios de propaganda, espionagem e ações pontuais de comandos ou ações secretas próprias dos serviços de inteligência; para remover realidades incômodas e transformá-las em teatros operativos mais favoráveis ao Império Ocidental – tendo até ao momento um relativo êxito em todos estes empreendimentos, desde que a viragem de rumo se fez efetiva. Ucrânia bem poderia ser o ultimo troféu arrebatado parcialmente das gadoupas do grande urso russo.
Venezuela é outro ponto de fricção, que junto com a Síria – já em guerra civil permanente – verifica às claras esta viragem da administração Obama; e é mesmo em estes pontos onde essa nova tendência encontra mais feroz resistência.
A criação de redes de poder dentro dos diversos países através de alianças diversas que vão desde mundo empresarial, artístico, cultural e mesmo das ONGs, têm resultado em realidades muito proveitosas para os interesses ocidentais. Até faz pouco parecia que os Emergentes não sabiam ou não podiam jogar esta partida dentro deste novo tabuleiro criado pelo poder global da elite Ocidental. Poderiam ser desafiados mesmo dentro das suas próprias fronteiras, com pouca capacidade de resposta por parte Emergente; criando aí cenários similares as ocorridos nos anos 90 com as revoluções das cores.
Até o de agora os Emergentes jogavam a defender suas fronteiras e aliados nas regiões mais perto do seu território onde exerciam certos domínios – em muitos casos compartilhados com o Ocidente. Aquilo ao que russos chamam o seu "estrangeiro próximo" é que consideram vital para sua própria sobrevivência como Império. Além de alguma tentativa cativa de criar pequenas mídias com capacidade global e algumas residuais alianças políticas no exterior... Pouco mais dava para acionar dentro do campo de jogo dos Emergentes.
Mas agora depois da guerra da Síria e da intervenção tanto das milícias libanesas de Hizbollah, como de assessores militares russos e iranianos, tudo parece confirmar que o Oriente também se prepara para jogar – se bem dentro do seu rádio de ação mais próximo, esta partida global contra o Ocidente, aceitando – até o de agora – as mesmas regras, e usando em seu favor todos os meios ao seu alcance. No entanto a iniciativa sempre é Ocidental – pelo tanto Oriente joga a defender no campo militar, tentando consolidar o avanço comercial e geoestratégico, conseguido a partir do inicio do milênio e mais concretamente nesta ultima década.
O único perigo deste novo jogo é que os pontos de fricção possam resultar tão quentes que o fogo se propague por toda uma área que envolva vários países ou mesmo por toda uma região... criando problemas muito graves, que arrastem a um confronto global.
Isso parece estar a acontecer agora mesmo na Ucrânia, após a entrada contundente da Rússia na Crimeia.
Mais que nunca a ação do adormecido movimento pacifista em todo o mundo é precisa.


Opiniom






















