'O Espírito da Igualdade', resenha de Manuel César Vila

A desigualdade estudada é interna e os países escolhidos são os possuidores da maior riqueza mundial

Segunda, 03 Janeiro 2011 10:47

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Manuel César Vila é tesoureiro da AGAL

Manuel César Vila - Nuns tempos onde o discurso imperante salienta a liberdade como conceito fundamental da convivência social, admira que apareçam livros como O Espírito da Igualdade, e ainda admira mais que acabe por se tornar num best-seller no mundo anglo-saxônico, onde os think-tanks neo-con estão a trabalhar com paradigmas diametralmente opostos às teses defendidas no livro de Richard Wilkinson e Kate Pickett.

O conceito de liberdade, e sobretudo o de liberdade individual, costuma ter muita boa imprensa nos mídia de massa, mas oculta o facto de resultar impossível, sem partir de uma mínima igualdade.  Precisamente, uma das teses defendidas no texto é a de fugir das soluções individuais para enfrentarmos os graves problemas que estão a viver as sociedades contemporâneas e o planeta em geral. O livro não pode principiar melhor:  “É um paradoxo notável que, no auge da realização material e técnica, continuemos a ser assolados pela ansiedade, sujeitos à depressão, preocupados com a opinião que os outros têm de nós, inseguros das nossas amizades, impelidos a consumir e com pouco ou nenhuma vida comunitária”.

Os autores de origem britânica dedicaram grande parte das suas pesquisas a questões de epidemiologia, de história da economia e de nutrição, périplo que podemos percorrer nas páginas do livro.  Este publicado inicialmente em 2009 baixo a chancela de Penguin Books, aparece na versão portuguesa em 2010 na Editorial Presença e em tradução do Alberto Gomes.

O título pode levar a engano e pensarmos num primeiro momento que o tema central do livro é o da desigualdade mundial, entre países, ricos versus pobres.  Mas a focagem é totalmente diferente.  A desigualdade estudada é interna e os países escolhidos são os possuidores da maior riqueza mundial.  Batem no miolo do sistema.  Vinte e três países dentro dos quais encontramos Portugal e o Estado espanhol.  A pesquisa completa-se também com os cinquenta estados norte-americanos.

Desta maneira, vão-se pondo em relacionamento a desigualdade dos rendimentos em cada uma dessas sociedades, com uma série de problemas sociais e de saúde (o nível de confiança nas pessoas, as doenças mentais, a esperança de vida e a mortalidade infantil, a obesidade, o desempenho educativo das crianças, as gravidezes na adolescência, os homicídios, as taxas de encarceração e a mobilidade social).  A conclusão final do estudo, que aparece já na capa do livro como sub-título é que “as sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor”.  A riqueza de seu não garante o bem-estar e a qualidade de vida.  As pessoas vivem pior se partilham a vida com outras pessoas, fisicamente próximas, mas afastadas economicamente falando.

Ainda que a análise não critica em nenhum momento diretamente o sistema capitalista, os autores sabem, como muitos outros, que este sistema não é eterno e que vai ir mudando para outro sistema diferente.  Isto pode aparecer como uma postura muito conservadora, mas as suas propostas levadas à prática implicariam a implantação de um autêntico programa político de esquerdas real.  Dizer que é o próprio sistema capitalista quem promove essas atitudes individualistas que acrescentam a desigualdade e também pôr em destaque como a desigualdade se entranha na pele das pessoas, de tal maneira que a psicologia individual e a desigualdade social relacionam-se uma com a outra como uma chave e uma fechadura, acarreta agitar consciências adormecidas, como mínimo.

Capa do livro, à venda na loja online Imperdível

A posição social seria o traço mais importante da identidade de uma pessoa.  Assim sendo, uma maior desigualdade acrescentaria as ansiedades de avaliação social das pessoas ao acentuar a importância do estatuto social.  A maior desigualdade, maior importância da posição social e portanto, maior ansiedade e concorrência para atingir esse estatuto.  Estaríamos diante de soluções individuais que apenas ajudam a acrescentar a desigualdade social.

As vias para atingir uma maior igualdade, como assinalam os autores, podem ser diferentes.  Alguns países, através dos impostos, outros com umas menores diferenças nos rendimentos brutos (antes de impostos).  No primeiro caso estariam os países escandinavos, no segundo o Japão.  Para os autores, o importante é alcançar essa igualdade, não importando a via para consegui-la.  O grave é o facto de que nas últimas décadas tem aumentado a desigualdade em muitos países desenvolvidos economicamente falando.  Parece bem simples, como alguém pode estar em contra de uma maior igualdade.  Acho que poucas pessoas e menos ainda, as que se atrevam a declará-lo e defendê-lo publicamente.  Mas o próprio sistema está a promover as soluções individualistas e não as colectivas.  As pessoas lutam individualmente pelo estatuto, acrescentado a desigualdade.  É a cobra que morde a cauda.

Os autores realizam uma crítica à esquerda política, achando que “as políticas progressivas têm vindo a enfraquecer há várias décadas pela ausência de um conceito de uma sociedade melhor”.  Em relacionamento com o anterior estaria o declínio do poder dos sindicatos e as grandes concentrações de poder nas instituições económicas, nomeadamente nas empresas multinacionais.  O rápido alargamento das diferenças de rendimento a partir da década de oitenta aconteceu em parte devido ao declínio do poder dos sindicatos.  Ver preto no branco parece um sonho diante do brutal ataque que estão a sofrer nestes tempos as organizações sindicais e as atividades que desenvolvem.  Por outra parte, as empresas multinacionais são a principal fonte de desigualdade de rendimentos.  Para além das desigualdades salariais existentes nas mesmas entre os directivos do topo e os obreiros da base; inúmeras, são hoje em dia maiores que muitos Estados-nações, enfraquecendo as reivindicações de uma verdadeira democracia.

Para finalizar, as alternativas que se propõem, sempre dentro do sistema económico vigente, focam a sua atenção nas organizações sem fins lucrativos e na participação democrática dos trabalhadores no capital empresarial (ideia nada nova, e que já defendiam os economistas Bowles, Gordon e Weisskopf no seu livro intitulado A economia do desperdício, de 1989).  Esta participação teria que ir acompanhada de métodos de gestão mais participativos.  Não aguardarmos, como acontece num momento de crise económica como o actual, à criação de cooperativas e à aquisição de empresas pelos próprios trabalhadores como resposta a circunstâncias desesperadas em que os sistemas tradicionais de atividade e de gestão empresarial fracassaram.  As vantagens estudadas são muitas e a principal, a redução da desigualdade.  De qualquer maneira, é necessário não esquecer que estas medidas a tomar deveriam fugir das soluções de curto prazo e da aleatoriedade nas mudanças no governo.

O livro conclui deixando um espaço para a esperança ao existir uma tendência histórica quase imparável, rumo a uma maior igualdade.  Contudo, os autores põem em destaque a necessidade de um movimento contínuo e empenhado na mudança.  As medidas políticas consistentes deverão levar-se adiante durante várias décadas e a sociedade precisa conhecer o rumo que quer seguir e criar um movimento social comprometido.  Nessas devemos estar.

Manuel César Vila (Santiago de Compostela)

Tesoureiro da AGAL, licenciado em Ciências Económicas, Administração e empresas e Diploma de Estudos avançados em Economia, todos pola USC. Na actualidade, faz parte do Conselho Federal da CIG-Ensino e da sua Executiva na comarca de Compostela.

 

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